As sonhadoras
Patrícia Werneck e Fernanda Machado, as irmãs Camila e Joana de “Paraíso Tropical”, deram duro para chegar lá. Mas, quando a paixão e o sonho são os mesmos, tudo fica mais fácil e prazeroso
Fernanda Machado chega ao estúdio da fotógrafa Nana Moraes, no Rio de Janeiro, vestindo uma calça jeans escura skinny, sapatilhas baixinhas sem meia, uma esvoaçante blusa cinza com estampas ao estilo Pucci e o ombro direito à mostra. Os cabelos negros, lisos e muito brilhantes, contrastam com a pele alvíssima, como se seu rosto fosse uma daquelas mandalas de yin-yang, equilibrado e hipnotizante. Fernanda é linda - e muito mais magra e com seios menores do que aparenta na pele de Joana, sua personagem na novela “Paraíso Tropical”. Segura de si, ela fala pelos cotovelos. Tem 26 anos e opinião sobre tudo. Discute numa boa assuntos tão distintos como a vida do escritor tcheco Franz Kafka, as coreografias do bailarino francês Philippe Decouflé ou o nariz de batata de Cameron Diaz. “Ela é nariguda e bochechuda”, dispara quando vê a atriz californiana na capa de uma revista de moda. Namora há dois anos o ator Jorge Pontual, 14 anos mais velho do que ela. “E muito mais vaidoso também”, revela. “Ele usa as minhas maquiagens para esconder as olheiras e come cenoura antes de pegar sol”, entrega.
Enquanto o maquiador dá os últimos retoques no rosto geométrico de Fernanda, numa cadeira no cantinho esquerdo da sala está Patrícia Werneck, que no folhetim global faz a jovem Camila. E Patrícia é o oposto de Fernanda - na ficção e fora dela. Em “Paraíso Tropical”, Joana é irmã de Camila e está ganhando peso na trama desde que descobriu ser filha de um cafetão. “É uma personagem de personalidade muito forte”, diz Fernanda. Já Camila, mais pacata e cheia de romantismo, é uma das pontas de um triângulo amoroso com Mateus e Fred, os personagens interpretados respectivamente por Gustavo Leão e Paulo Vilhena. Na vida real, Patrícia é uma atriz de 27 anos, casada há cinco com o ator e diretor de TV André Barros, de 40. Católica fervorosa, fez questão de casar como manda o figurino: na igreja, de véu e grinalda. Ela traz no semblante feições angelicais e olhos de um verde-pistache. Tem a fala contida, veste-se com mais discrição do que a colega e encara o interlocutor com certa timidez. Atrás da orelha esquerda, porém, esconde uma pequena ousadia: uma lua e uma estrela tatuadas.
Realidade distante
Diferenças à parte, ambas são jovens, belas e talentosas. E têm outro ponto em comum: estão correndo atrás do que querem. “Eu sempre tive dois sonhos na minha vida. Um deles eu realizei, que era morar em Nova York. E o outro é morar em Paris”, conta Patrícia. Mas e a carreira de atriz? “Um sonho me levou a outro. A minha vontade de ir morar em Nova York transformou-se no sonho de me tornar uma atriz”, diz. Patrícia foi bailarina na infância, e dos 12 aos 21 anos freqüentou a tradicional escola de teatro O Tablado, no Rio de Janeiro. Naquela época, o ofício diante das câmeras era uma realidade distante. Fazia peças amadoras e ganhava algum dinheiro com campanhas publicitárias. Tanto que se formou e trabalhou na área de marketing. No ano 2000, passou uma rasteira no destino, quando largou tudo para ir estudar teatro na escola John Strasberg, em Nova York. Para se manter, fazia bicos como garçonete em restaurantes da moda. “Foi lá que me dei conta de que sonhava de fato com a carreira de atriz”, revela. Então conheceu Luana Piovani, que a convidou para estrelar com ela o teatro infantil “Alice no País das Maravilhas”. “Vi minha paixão se transformando em sonho e, rapidamente, em realidade”, lembra. Mas o caminho é longo e os anos seguintes na vida da atriz carioca foram duríssimos. Ouviu seis nãos da Rede Globo, foi reprovada em testes de elenco e viu sua auto-estima bater no pé quando não conseguiu ingressar na Oficina de Atores, a tradicional escola da Globo e catapulta inicial para o estrelato dos jovens atores. O vento começou a bater a favor quando conquistou a vaga para a peça dramática “Pequenas Raposas”, em 2004, ao lado de artistas tarimbados como Sérgio Britto, Beatriz Segal e Joana Fomm. Depois vieram participações nas minisséries “Mandrake” e “JK”.
Do Paraná para o Projac
A trajetória profissional de Fernanda Machado, paranaense de Maringá, foi um pouco diferente. Da casa da família ao Projac, os estúdios da Rede Globo no Rio de Janeiro, passaram-se oito anos. E a vida que tem hoje não bate com o que sempre sonhou - o que não quer dizer que não esteja dando pulos de felicidade. “Nunca, em toda a minha vida, pensei em fazer televisão. Eu gosto mesmo é de teatro”, afirma. E desde o dia em que encasquetou que queria ganhar a vida sobre o tablado não teve quem a fizesse mudar de idéia. A estréia na televisão se deu totalmente por acaso. Durante uma montagem de “Metamorfose”, de Kafka, em Curitiba, ela foi convidada para fazer um teste na Globo. Fez, voltou para Curitiba, novo teste no Rio de Janeiro, volta para Curitiba… Até que a chamaram para integrar o elenco da novela “Começar de Novo”, em 2004. No ano seguinte viveu uma mocinha de caráter duvidoso em “Alma Gêmea”, também da Globo. “Sempre fui movida pela paixão, independentemente de qualquer outra coisa”, diz. Paixão essa que a motivou a sair da casa dos pais aos 17 anos e se matricular no curso noturno de artes cênicas da Faculdade de Artes do Paraná, em Curitiba. Capaz de virar noites em claro em busca do tom perfeito para seus personagens ou de mergulhar fundo na pesquisa, passou a ser altamente requisitada para campanhas publicitárias e montagens locais. Um exemplo: ela esteve presente em boa parte das 16 edições do Festival de Teatro de Curitiba, um dos mais importantes do país. “Vivi oito anos da minha vida, em Curitiba, com a grana do teatro. Paguei aluguel, comprei carro e morei em Londres”, orgulha-se. Foi na Inglaterra que Fernanda colocou em prática a segunda parte de seu sonho: se aprofundar ainda mais na dramaturgia. Lá estudou interpretação, dança, clown, maquiagem, expressão corporal, figurino. Deu resultado: atualmente ela monta alguns dos figurinos da Joana em “Paraíso Tropical”. “Sei fazer isso. E às vezes estou num momento tão íntimo com minha personagem que sei mais do que ninguém o que ela está sentindo”, revela. Quando terminar as gravações, em setembro, ela engata o lançamento do longa-metragem “Tropa de Elite”, dirigido por José Padilha, que trata das questões de segurança pública no Brasil. Sonho realizado? “Nosso sonho é poder viver das nossas paixões”, dizem, em uníssono, Patrícia e Fernanda. E isso elas conseguiram.
