Em Rádio Cidade Perdida, Daniel Alarcón trata em tom ficcional um assunto real: a guerra civil no Peru na década de 80
O escritor peruano Daniel Alarcón, de 30 anos, poderia integrar a mesma patota de outros jovens autores, a exemplo do serra-leonês Ishmael Beah, do americano Dave Eggers ou do nigeriano Uzodinma Iweala. Todos eles, em suas obras mais recentes, travam contato com a pobreza de países da África e a dura trajetória de seus personagens centrais a um futuro menos doloroso. Recém-lançado no Brasil pela editora Rocco, Rádio Cidade Perdida se passa numa país sem nome, mas que muito se assemelha ao Peru natal do escritor. Ali, uma radialista comanda um programa semanal no qual se propõe a encontrar pessoas desaparecidas. Ela chama-se Norma, e apesar de dar nova esperança a muitas famílias, ela mesma vive sob a pesada sombra do sumiço de seu marido, Rey, provavelmente vítima da cruenta guerra civil que assolou o país durante toda a década de 80 e início da de 90. Até o dia em que um garotinho chamado Victor chega à cidade egresso de um pobre e isolado vilarejo com dicas valiosas do paradeiro de Rey.
Apesar de ficcional, Rádio Cidade Perdida tem uma boa dose de realidade. Rey foi inspirado no tio de Alarcón, o professor com idéias esquerdistas Javier Antonio Alarcón Guzmán, que sumiu em dezembro de 1989 em Lima e nunca mais foi encontrado. “O livro é baseado em alguns fatos reais como esse episódio do meu tio, mas trata-se, definitivamente, de uma ficção”, diz o autor. Leia a entrevista:
Você nasceu em Lima, no Peru, mas mora nos Estados Unidos. Quando se mudou para lá?
Praticamente toda a minha vida morei nos Estados Unidos. Nasci em 1977, e três anos depois, em 1980, minha família se mudou para os Estados Unidos. Foi exatamente quando começou a guerra civil no Peru. Era uma época em que todo mundo queria em sair do país, e ninguém pensava em voltar. As coisas estavam muito feias até a década de 90. Não saímos do país por razões políticas, mas simplesmente porque meu pai conseguiu um bom emprego nos Estados Unidos. Mas como durante todos esses anos não era algo muito recomendável voltar ao Peru, ficamos vivendo por aqui.
Mesmo morando nos EUA você é editor da revista peruana Etiqueta Negra. Como faz?
Viajo com certa freqüência para Lima – cerca de um ou dois meses todos os anos. Mas a maioria do meu trabalho junto à revista eu faço por meio da internet. Todas as semanas realizamos reuniões por e-mail e por telefone. Mas o trabalho pesado, esse sim, é feito em Lima. E desse eu acabo me livrando [risos].
Em que idioma se sente mais a vontade para escrever: espanhol ou inglês?
Escrevo exclusivamente em inglês, inclusive os artigos para a Etiqueta Negra. A tradução é executada pelo mesmo profissional que cuidou da versão em espanhol do meu livro, um grande amigo chamado Jorge Cornejo. Acredito que eu até poderia escrever em espanhol os ensaios que produzo para a Etiqueta Negra. Mas é uma questão de tempo: eu demoraria o dobro do tempo, de modo que não faz muito sentido. Minha educação literária ocorreu 100% em inglês.
Quanto tempo demorou para escrever Rádio Cidade Perdida?
A primeira vez que pensei nela foi em 1999. Estava no Peru e tinha muita curiosidade em saber o que tinha acontecido com um dos irmãos do meu pai, Javier Antonio Alarcón Guzmán, um professor com idéias de esquerda que desapareceu em dezembro de 1989 e nunca mais foi encontrado. Foi aí que pensei: bom, quem sabe eu possa escrever uma história sobre isso. Mas seria muito complicado para mim escrever um texto de não-ficção sobre o tema, de modo que dei início à Rádio Cidade Perdida. A princípio era para ser um conto, o que de fato foi: chama-se Guerra a Luz de Velas. O livro é baseado em alguns fatos reais como esse episódio do meu tio, mas trata-se, definitivamente, de uma obra ficcional.
Você se interessa por política?
Não importa se estamos na América Latina, nos Estados Unidos ou na Europa, política é sempre algo muito sujo. Nunca conheci um país onde as pessoas estejam satisfeitas com seus governantes. O grande problema da política nos Estados Unidos é que ela é aceita por boa parte dos outros países.
Em muitos momentos, a sua narrativa remete ao realismo fantástico da Macondo de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez. Quais são suas influências literárias?
García Márquez é um escritor importante para mim, mas confesso que não leio nada dele faz uns seis, sete anos. Eu não gosto do realismo mágico barato. Aquele estilo que se converteu numa espécie de culto, de quase obrigação, que deveria ser a literatura latino-americana. Juan Rulfo, é claro, está na lista dos grandes. Um exemplo deste realismo mágico barato o qual me refiro: o inglês Louis de Bernières, autor de “O Bandolim de Corelli”. Ele também três novelas ambientadas na Colômbia que chegam a ser ofensivas. Ele promove uma manipulação da idéia do que deveria ser realismo mágico, como gatos que crescem descomunalmente ou mulheres hipersexuais. Tudo muito pobre e caricato. Não creio que seja isso que eu faça. Minhas histórias são realistas. Mas é sempre muito difícil apontar as nossas próprias influências. Sempre tive predileção pelos escritores russos, e também por Kapuscinski, Faulkner e pelo próprio Juan Rulfo. As pessoas me perguntam se sou peruano ou americano. Se for ver pela minha herança literária eu poderia dizer que sou russo [risos].
A revista literária Granta recentemente o elegeu um dos 21 melhores jovens autores americanos. Você se sente parte de uma nova onda ou escola de escritores?
A lista é muito valiosa. Alguns eu admiro muito. Outros, sinceramente, nunca ouvi falar. O ofício de escrever é sempre muito solitário. São poucos os escritores que se sentem identificados com algum grupo. Eu converso, em termos literários, muito mais com Kapuscinski e Bruno Schulz do que com Dave Eggers, por exemplo. Estamos mais acostumados a pertencer a uma tradição literária, por mais eclética que seja, do que a um grupo ou coletivo.
Quanto tempo você gasta do seu dia escrevendo?
Tenho um escritório no centro de Oakland, na Califórnia, e ali fico cerca de 4, 5 horas ao dia debruçado sobre o computador. Comecei uma nova novela em março do ano passado. Mas estive viajando por tanto tempo para divulgar meu livro, que ainda não tive tempo para retomar. Também tenho a metade de um livro de contos que pretendo terminar e esta novela que, por ora, está parada.
Um dos personagens de seu livro, uma criança de 11 anos chamada Victor, tem pensamentos de adulto, muitas vezes muito cruéis. Como nasceu Victor?
Ele vem de uma povo muito pobre e distante. É um tipo difícil. Já não é mais uma criancinha, tampouco é um adolescente. E sua inteligência, muitas vezes, surpreende os adultos. Ele tem conhecimento suficiente para se dar conta de que o mundo é um lugar bastante complicado.
Você trata com certa obstinação temas como a família. Há, inclusive, um trecho que diz “uma vez dividida, uma família nunca mais pode ser inteira.” Qual a sua visão sobre a instituição familiar nos dias de hoje?
Acredito que antigamente era mais fácil manter laços estreitos. Atualmente, para manter esses mesmo laços é necessário um esforço muito maior, sem contar na sorte.
A narrativa de Rádio Cidade Perdida é muito cinematográfica. Já recebeu alguma proposta para transformá-lo em filme?
Ainda não recebi nenhuma proposta. Mas adoraria, é claro, que virasse um filme dirigido por Alejandro Gonzáles Iñárritu ou Fernando Meirelles, por exemplo. O fato é que nós, jovens escritores, temos muitas referências cinematográficas. Essa também é nossa linguagem, a nossa herança narrativa. Mas não foi algo consciente: não escrevi pensando num roteiro de Hollywood.
