Dormindo na idéia

Maio 12, 2006

Jonathan é um dos maiores nomes da nova literatura norte-americana. Ele anda angustiado porque sua filha não o deixa mais dormir. Para ele, um bom sono é a base da criatividade

Jonathan Safran Foer é um dorminhoco assumido. Onde encosta, capota. Quando não está roncando, esse judeu de 30 anos escreve livros best-sellers. Autor de Tudo se Ilumina (que virou filme ano pasado com Elijah Wood no papel do autor) e Extremamente Alto & Incrivelmente Perto (que a editora Rocco lança neste mês), Foer é um dos escritores norte-americanos mais festejados da atualidade. Rolling Stone e Esquire já o elencaram na lista dos “homens do ano”.

Esse partidão é casado com Nicole Krauss, 32, autora de outros best-sellers: Man Walks Into a Room e A História do Amor (lançado no Brasil pela Companhia das Letras). Como o marido, ela também é um dos nomes fortes da nova literatura norte-americana. O letrado casal mora no bairro nova-iorquino do Brooklyn com a filha Sasha, de cinco meses, e George, o cachorro da raça great dane (a mesma de Scooby-Doo) e, em casa, preferem não discutir literatura. Mas logo mais chegam ao Brasil para falar sobre livros. Jonathan e Nicole serão destaques da Flip, a Festa Literária Internacional de Parati, em agosto.  Atualmente ele divide seu tempo entre os rascunhos de seu terceiro romance e noites mal dormidas por conta da pequena Sasha, que insiste em tirar o sono dos pais.

Qual é a importância e a influência do sono – e dos sonhos – na sua criação literária?
O sono sempre teve um papel muito importante. E eu sempre fui um grande dorminhoco. Mas depois que você tem uma filha tudo isso muda. Sou obrigado a levantar da cama a cada duas horas. E a primeira coisa que eu perdi com isso foi a minha criatividade.

Mas você é de Nova York, a cidade que nunca dorme…
O fato é que nos últimos quatro meses eu não durmo mais, e isso não é por causa do lugar onde moro, e sim com quem moro, no caso a minha esposa e a nossa filha, Sasha, que nasceu em fevereiro deste ano.

Você acompanhou o trabalho da equipe que transformou seu primeiro livro, Tudo se Ilumina, em filme?
Não, não fiz nada. Não sou cineasta. Acho um grande erro escritores que são bons com as letras em livros acharem que podem ser bons no cinema. É como um bom flautista fazer um concerto e tocar violoncelo. Livros e filmes são instrumentos muito diferentes.

Seu segundo livro, Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, trata de certa forma dos atentados terroristas em Nova York. Nos Estados Unidos muitos filmes com essa temática estão sendo lançados agora. Sua história também deve ir pra a tela grande?
Possivelmente, mas nada foi definido. Tem gente interessada em transformá-la em roteiro para o cinema, mas isso não significa nada. Muitas vezes as pessoas demonstram interesse e no fim das contas nada acontece.

Você é casado com a também escritora Nicole Krauss. Costumam falar de “trabalho” dentro de casa ou é um assunto proibido?
[Risos] Eu prefiro trabalhar fora de casa, então normalmente vou escrever minhas coisas em um café, em algum parque. Nicole prefere trabalhar em casa. Na hora em que eu volto da rua normalmente ela já terminou de escrever, então a última coisa que queremos conversar é sobre escrever livros.

Qual a sensação de ser um jovem escritor, com apenas dois livros lançados, e ter sido comparado a Philip Roth e Salman Rushdie?
Acho que cometeram algum engano na hora de citar meu nome [risos]. Falando sério, isso não é importante pra mim.

Em agosto você será um dos convidados da Flip. É a primeira vez que vem ao Brasil?
Não, já fui muitas vezes. Tenho familiares em São Paulo. Venho de uma família de judeus, e muitos deles se refugiaram no Brasil depois da II Guerra Mundial. Minha avó, na verdade, gostaria de ter levado a minha mãe para o Brasil. Mas por algum motivo acabou vindo para os Estados Unidos…

E o que você sabe sobre a Flip?
Paul Auster, que esteve aí dois anos atrás, me falou muito bem. Nós moramos na mesma rua e somos bons amigos. Já conheço Parati, e a cidade por si só é um lugar maravilhoso.

E o que você sabe sobre Jorge Amado, que será o homenageado da festa neste ano?
Foi ele que escreveu Budapeste?

Não. Budapeste foi escrito por Chico Buarque, que também é um grande cantor e compositor…
Eu amo esse livro. Mas lembrei: de Jorge Amado já li Gabriela, Cravo e Canela.

O que você prefere: os autores tradicionais ou novas revelações literárias?
Na minha opinião, tradicional não é sinônimo de velho. Kafka, por exemplo, é mais novo, mais atual, mais moderno do que muita gente que está começando agora.

Você já está escrevendo seu terceiro livro?
Comecei a rascunhá-lo, mas ainda está tudo muito cru. Por causa do bebê estou escrevendo bem devagar.

E do que se trata? É sobre o seu primeiro filho?
Não, não. Não faria isso. É uma novela, mas ainda prefiro não adiantar o tema. Está tudo muito cru.